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Médico troca jaleco por trilhas para mapear onças no Cerrado goiano

23 de Fevereiro, 2026
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Médico troca jaleco por trilhas para mapear onças no Cerrado goiano
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Médico urologista, Leandro Carvalho Vitorino, de 45 anos, troca o jaleco e o estetoscópio pelas botinas de trilha e câmeras fotográficas nos dias de folga, quando deixa Goiânia (GO) na direção à Serra dos Pireneus, localizada entre os municípios de Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cocalzinho de Goiás, para monitorar a vida selvagem na área.

“Comecei em 2009, fotografando a flora da região, assim como as aves, insetos e peixes através da fotografia subaquática em apneia. Durante os anos fui observando pegadas de animais, entre elas as de onça-pintada”, conta o médico.

Em 2017, Leandro instalou as primeiras armadilhas fotográficas. Desde então, ele afirma ter registrado 37 sujeitos de onças-pintadas na área, incluindo filhotes. “É uma população saudável, viável geneticamente, mas que também sofre em algumas áreas pelo conflito com seres humanos. Assim como os desafios que os grandes felinos enfrentam em todo o planeta”, diz. Existe nove anos, ele acompanha e registra as onças vivendo livres na natureza.

Adaptação das onças No decorrer dos anos de monitoramento, Leandro diz ter sido surpreendido por descobertas que mudaram sua percepção sobre o comportamento dos animais.

Segundo ele, as onças demonstram alta capacidade de adaptação à presença humana, tanto de turistas quanto de moradores da zona rural. “São extremamente tímidas. Evitam contato e utilizam tanto áreas preservadas quanto propriedades privadas para percorrer longas distâncias”, explica.

O trabalho também revelou a necessidade da Serra dos Pireneus como corredor ecológico. Registros indicam que a área conecta populações de onça-pintada ao Planalto Central, à Serra da Mesa e ao Vale do Araguaia. Uma das onças fotografadas por ele reapareceu em câmera instalada por outro pesquisador no Parque Nacional de Brasília. Outra, monitorada por colar eletrônico no Mato Grosso, passou através da área perto da Pirenópolis.

As armadilhas fotográficas de Leandro também captaram espécies raras, como o tatu-canastra — considerado o maior tatu do mundo — e o cachorro-vinagre, destacado como o canídeo mais ameaçado do Brasil.

Leia também Do hobby à pesquisa A paixão do médico através da natureza iniciou na infância, quando ele colecionava livros sobre animais e decorava nomes de aves, répteis e mamíferos. Mas foi somente na faculdade de medicina, em 1999, que Leandro conseguiu comprar as primeiras câmeras amadoras. Anos depois, já estabelecido, adquiriu o primeiro equipamento profissional. “Foi quando iniciei meu hobby tão sonhado”, afirma ele.

A relação com a área se fortaleceu através de um trabalho voluntário, com doação de roupas e remédios, consultas e pequenas cirurgias sem custo para moradores da zona rural. A confiança construída abriu caminho para que ele explorasse os boqueirões, trilhas e cavernas da serra.

Em 2019, incentivado através da cunhada, Leandro produziu a página Bichos dos Pireneus, onde compartilha registros de seu acervo. As imagens chamaram atenção. “Leandro Silveira, do Instituto Onça-Pintada, entrou em contato comigo e iniciamos uma amizade e parceria”, conta ele. Em 2022, o médico passou a integrar o grupo de pesquisadores Onças do Cerrado, que estudam as onças pintadas do bioma.

Hoje, Leandro age como colaborador voluntário no levantamento de fauna do Parque Estadual dos Pireneus, com autorização da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e direção técnica do instituto.

Métodos de registro de imagens Ele é responsável por ir a campo e captar as imagens e informações sobre a fauna. “Usamos como metodologia de pesquisa de campo armadilhas fotográficas, estúdios de selva, registros com câmeras na mão e identificação de pegadas, marcas, cheiros e fezes dos animais, além das carcaças abatidas. Também utilizamos o colar GPS como ferramenta de pesquisa”, explica.

O trabalho continua em redes sociais, na página que reúne quase 15 mil seguidores. A página traz uma linguagem simples para que a sociedade não científica possa compreender, se sensibilizar através da causa conservacionista, valorizar a área e os animais. Por isso, ela é um canal de educação ambiental entregue diretamente a todos que queiram aprender, apreciar a natureza e se encantar por esses animais incríveis.”

Além do trabalho de campo e da atuação voluntária nas pesquisas, Leandro também reúne registros de quase duas décadas de expedições em um projeto pessoal: um livro com mais de 300 páginas dedicadas à vida selvagem da Serra dos Pireneus, com imagens consideradas inéditas da fauna local.

O projeto, entretanto, ainda não saiu do papel. “Tenho o livro pronto, com fotos incríveis da vida selvagem da Serra, mas me faltam recursos para produzir”, afirma.

Onças são “termômetro ambiental” Para Leandro, a presença da onça-pintada em toda a área da Serra dos Pireneus, incluindo o município de Pirenópolis, funciona como um termômetro ambiental.

O maior felino das Américas ocupa o topo da cadeia alimentar e exige grandes regiões preservadas para sobreviver. Onde existe onça, explica o médico, existe água, apreendidas, cobertura vegetal e equilíbrio ecológico.

Apesar disso, as ameaças são incessantes. Entre as principais, estão o conflito com criadores de gado, a perda de habitat, a caça e os atropelamentos em estradas que cortam a área. Para ele, entretanto, o maior desafio ainda é a falta de consciência sobre a necessidade do animal.

“Proteger a onça no seu habitat é proteger toda a cadeia ecológica. Ela é símbolo da biodiversidade brasileira. Onde ela está significa que o ecossistema ainda está funcionando.”

Com informações Metropoles

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