No último mês, através do menos três animais selvagens foram achados em regiões urbanas de Santa Bárbara d’Oeste. Especialistas evidenciam que a urbanização e as mudanças climáticas podem estar entre as causas desse fenômeno na fauna local. Prova disso foram os alagamentos registrados recentemente no município.
Em 27 de janeiro, um tatu foi visto na Rua da Ervilha, no Jardim Pérola. Agentes da Guarda Municipal (GM) o conduziram até uma área de mata próxima.
Na primeira semana de fevereiro, um macaco-prego foi filmado por uma moradora na Rua São Marcos, na Vila Dainese.
O terceiro animal avistado foi uma capivara com indícios de disparo de arma de fogo. Ela foi resgatada através do Corpo de Bombeiros em 13 de fevereiro, dentro da Igreja Sagrado Coração de Jesus, na Rua Floriano Peixoto, no bairro Santa Cruz. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu um dia depois.
O QUE LEVA OS ANIMAIS SILVESTRES ÀS ÁREAS URBANAS?
O professor de Biologia da Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo, Leandro Pontes, explica que vários fatores contribuem para esse deslocamento.
“A urbanização é uma das principais razões. À medida que a cidade se expande, o habitat natural dos animais diminui”, afirma Pontes.
Ele ressalta que essa expansão ocorre de dois meios: através do crescimento imobiliário e através da ocupação irregular de regiões verdes, frequentemente associada a queimadas ilegais que destroem o ambiente natural.
Em 2025, segundo o professor, as mudanças climáticas se tornaram um fator preponderante neste fenômeno migratório.
“Períodos prolongados de chuva podem modificar o habitat das espécies silvestres, levando-as a buscar novos ambientes. O mesmo ocorre em estiagens prolongadas. Para muitos animais, o meio urbano se torna atrativo pela facilidade de encontrar alimento”, explica.
Segundo Pontes, essa oferta de alimento ocorre de dois meios: através do lixo orgânico descartado através da população e através da alimentação direta feita por pessoas, o que pode ser prejudicial aos animais.
“Embora muitas vezes seja bem-intencionado, alimentar animais silvestres pode comprometer sua saúde e até torná-los agressivos”, alerta o biólogo.
Além disto, o contato com esses animais pode representar riscos sanitários. “Doenças transmitidas por animais silvestres podem se tornar problemas de saúde pública, como ocorreu com a Covid-19, resultado da interação entre humanos e animais”, observa Pontes.
POSSÍVEIS SOLUÇÕES
Entre as alternativas para amenizar o problema, o professor aponta a necessidade de um planejamento urbano efetivo e maior fiscalização das regiões verdes.
“É fundamental que a expansão das cidades ocorra de forma vertical, reduzindo o desmatamento. Na nossa região, queimadas frequentes causam impactos significativos, como a recente fuligem que alterou a cor do céu”, destaca.
RESGATE E CUIDADOS COM OS ANIMAIS
A médica veterinária Thaisa Pardini, que atende animais selvagens resgatados em sua clínica em Americana, cita algumas das espécies que recebe com frequência.
“Atendemos diversas aves, como maritacas, papagaios, urubus, gaviões e corujas, além de gambás e cágados-de-barbicha, encontrados em córregos”, relata.
Os animais chegam à clínica por intermédio da Guarda Municipal ou por resgates independentes realizados por moradores. Ao dar entrada, é necessário registrar um boletim de ocorrência para formalizar a internação.
Thaisa alerta que muitas dessas espécies podem transmitir doenças aos humanos, como raiva, febre maculosa, candidíase e clamidiose.
“O manuseio desses animais exige precaução. É fundamental o uso de luvas, máscaras e outros equipamentos de proteção”, orienta.
Ela também ressalta que alguns animais chegam à clínica em estado crítico e não podem mais tornar à natureza.
“Recebemos um urubu que perdeu uma asa após ser baleado. Ele terá que viver para sempre na clínica”, lamenta.
Por outro lado, quando capaz, os animais passam por um processo de reabilitação para que possam ser reintegrados ao ambiente natural.
ANIMAL SILVESTRE NÃO É PET
A vereadora Roberta Lima (PRD), de Americana, que tem como principal bandeira o bem-estar animal, reforça a necessidade de diferenciar animais selvagens de animais domésticos.
“Um animal silvestre não é um pet. Se um macaquinho ou outra espécie aparecer, não tente domesticá-lo”, enfatiza.
Ela orienta que o povo só deve intervir se o animal estiver ferido. “Caso encontre um animal silvestre machucado, entre em contato imediatamente com a Guarda Municipal e registre um boletim de ocorrência”, aconselha.
Entre os ferimentos mais comuns cuidados na clínica, estão ferimentos causadas por fios elétricos ou linhas de pipa, ataques de cães e disparos de arma de fogo, que afetam principalmente corujas, gaviões e urubus.
Mudanças climáticas e expansão urbana forçam migração de animais selvagens em Santa Bárbara d’Oeste
Com informações de Tododia

