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“A enchente de 24”: livro-reportagem detalha tragédia climática no RS

6 de Novembro, 2024
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“A enchente de 24”: livro-reportagem detalha tragédia climática no RS
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À noite, os faróis dos carros que circulam em pontos onde ainda é plausível trafegar projetam efígies nos muros, fachadas e marquises da porção já inundada. Ora são seres humanos, errantes pelos bairros Garoto Deus, Cidade Baixa e Centro Histórico. Ora são estátuas que, nas trevas da Capital atormentada por sua maior tragédia ambiental, provocam sustos.

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Às 23h de 9 de maio de 2024, uma quinta-feira, a capital gaúcha era descrita assim pelos jornalistas André Malinoski, Marcelo Gonzatto e Rodrigo Lopes. A força das águas, resultado de monumental desrespeito à natureza, se traduzia no sul do Brasil em enchentes devastadoras e na perda de mais de uma centena de vidas. Os detalhes da catástrofe humana agora são contados no livro-reportagem “A Enchente de 24 — A História da Maior Tragédia Climática de Porto Alegre”.

Em 175 páginas, os autores gaúchos narram, dia a dia, o fenômeno climático, que, com início de chuvas torrenciais no interior do estado, fez rios subirem além da cota, transbordarem e engolirem cidades, entre elas Porto Alegre. Com revelações e histórias surpreendentes, a obra explora a experiência de décadas de jornalismo para descrever o drama da capital, dos bairros e, acima de tudo, do povo gaúcho.

O que se lê em “A Enchente de 24” não permite distanciamento. Com linguagem envolvente, a grande reportagem afunda o pé do leitor e da leitora na lama, como se envolvidos nas buscas aos sobreviventes — ou na luta através da própria sobrevivência. Atônitos, observam as rachaduras nos muros e nas comportas da cidade, vagam entre as casas e os edifícios submersos, sentem a dor das mortes — 183 em todo o RS — e o pesar dos 15 mil desabrigados em uma Porto Alegre então ilhada do Brasil e do mundo.

André Malinoski estava de frente à comporta do Cais Mauá, na boca do Guaíba, quando a inundação iniciou no Centro Histórico da capital. “Os sacos de areia de contenção não ofereciam resistência. Lembro de um imenso silêncio na região. Na Praça da Alfândega (também no centro da cidade), apareceram peixes mortos. Nos dias posteriores, ao dobrar uma esquina, onde antes se via carros e ônibus, agora dava-se de cara com barcos”, conta.

De lancha, o repórter do jornal Zero Hora circulou pelas ruas alagadas, desde o Centro até o Aeroporto Internacional Salgado Filho. Também acompanhou os resgates dos moradores das ilhas do Guaíba, o grande lago que, confundido com rio, banha a capital do estado. “Foi a parte mais difícil do ponto de vista emocional. Eram cenas dramáticas de embarcações apinhadas de idosos, crianças e animais chegando em terra firme. Nunca vou esquecer dos olhares de quem quase morreu”, relembra.

“Coração da capital submerso”

Rodrigo Lopes, acostumado a cobrir guerras e desastres naturais no mundo através do Grupo RBS, viu a tragédia climática bater à porta. “Eu, que já havia feito diversas coberturas no exterior, pela primeira vez, cobria uma tragédia na cidade onde nasci. Ao mesmo tempo, eu precisava cuidar da minha família e equilibrar os lados profissional e pessoal. Aqui, a tragédia falava português. E tinha sotaque gaúcho”, reflete.

Na segunda-feira, 6 de maio, cinco dias depois de o começo das enchentes em Porto Alegre, Rodrigo conseguiu emprestado dois botes. “A cidade já estava inundada. Durante três horas, na (esquina da rua) Caldas Júnior com a (rua dos) Andradas, eu naveguei, remando pelo Centro, pelos principais cartões-postais. O que mais chamava a atenção era o silêncio. Só dava para ouvir o barulho do remo na água. Em alguns pontos, a profundidade era de 1,70 m. O coração da capital estava submerso”, evidencia. Rodrigo também fez incursões noturnas através da capital gaúcha, então sem energia elétrica.

Marcelo Gonzatto, que havia seguido de perto as enchentes de setembro de 2023 no Vale do Taquari, área que abrange em torno de 40 municípios na parte central do Rio Grande do Sul, destaca uma das passagens emocionantes do livro. “Trouxemos a história do homem que sobreviveu às duas piores enchentes do estado. Em 1941, mais de 80 anos atrás, adolescente, ele atuou como voluntário em um barco. Agora, prestes a completar 99 anos, foi retirado de casa e ficou dias em um abrigo até se refugiar na casa de parentes. Voltou para casa no dia do aniversário”, conta o também repórter de Zero Hora.

Dividido em três partes — A Cidade Subjugada, Como a Água Tomou a Capital e A Luta através da Sobrevivência —, “A Enchente de 24 — A História da Maior Tragédia Climática de Porto Alegre” tem prefácio do jornalista da Globonews André Trigueiro e posfácio da jornalista, ambientalista e bióloga Jaqueline Sordi. A publicação é da editora BesouroBox. A renda dos autores será revertida em doações para as vítimas da tragédia com o auxílio do canal oficial do governo do Rio Grande do Sul.

Veja

A Enchente de 24 — A História da Maior Tragédia Climática de Porto Alegre

André Malinoski, Marcelo Gonzatto e Rodrigo Lopes

Editora BesouroBox, 175 páginas

R$ 54

Com informações Metropoles

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